Dr. Mário Neves | Entrevista

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A HM Consultores apresenta a entrevista ao Dr. Mário Neves, economista de profissão e com mais de 40 anos dedicados ao setor do vinho.

 

Quais considera serem os pontos fortes e fracos do setor em Portugal?

– Pontos Fortes

  • Boa relação preço/qualidade.
  • Tendo em conta a diversidade de solos e climas, reconhecido bom potencial para a produção de vinhos de qualidade.
  • Número razoável de castas únicas, muitas abandonadas, mas ainda com um bom número ainda  com expressão produtiva.
  • Sucessos de imagem conseguidos a nível de distribuição global, com o vinho do Porto e vinhos Roses (nos anos 70, 80 e início dos 90), permitindo concluir que a menor imagem de Portugal no Mundo, não é fator impeditivo. para a repetição de outros sucessos futuros com outros vinhos.
  • Forte importância do mercado étnico ou equivalentes (Brasil e antigas Colónias) para melhores quotas de importação dos vinhos de Portugal no Mundo, fator sempre importante em comparações, com outros Países importadores em muitos mercados.
  • Ajuda relativa do turismo que nos visita, para uma maior divulgação e imagem internacional das marcas mais vendidas em Portugal.
  • Nos últimos 15 anos, os principais críticos Americanos, com muita influência a nível global, têm pontuado muitas dezenas de vinhos, principalmente os do Douro, entre 90 e 99 pontos, mesmo 100. E,isto só terá paralelo com um número de regiões muito limitado doutros Países produtores nossos concorrentes.

– Pontos fracos

  • O maior de todos, deriva, na minha opinião, do ensino superior da Agricultura, o qual não ajuda à formação de muitos e bons quadros especialistas de viticultura.
  • Quase total inexistência de investigação no sector Agrícola e, portanto, também na área da viticultura. A Espanha, por exemplo, tem 25 centros de investigação vitícola!
  • Reduzida troca de experiências vitícolas e enológicas entre os quadros em Portugal: em Oregon, há mais de 30 anos realiza-se, todos os anos, um Congresso dos enólogos para discutir as uvas Pinot Noir, predominantes naquela região, e, muito fruto desse Congresso, os vinhos produzidos com as mesmas passaram a ser um icon nos Estados Unidos.
  • Organização institucional do setor limitativa, com competências das Comissões Vitivinicolas reduzidas à certificação e à promoção, sem ter como objeto a melhoria qualitativa dos vinhos das respetivas regiões: bastava copiar o modelo italiano, que, nalgumas regiões permitiu, nos últimos anos, a produção de vinhos de alta qualidade, vendidos a preços altíssimos, que simultaneamente valorizaram os terrenos onde são produzidos.
  • Com dezenas e dezenas de castas na maior parte das regiões vinícolas e cada produtor a fazer a sua própria mistura de uvas, muita dificuldade, senão impossibilidade, dos consumidores internacionais (com exceção dos dos mercados da saudade) perceberem a marca coletiva que cada uma dessas regiões representa.
  • Sem que se perceba a marca coletiva, impossibilidade de construir marcas com qualquer uma delas, à escala global: tanto o vinho do Porto, como os Roses Portugueses nas garrafas fantasia, tornaram-se marcas, por se fabricarem estilos iguais por um grande número de produtores (nos anos 70/80,dezenas deles faziam Roses).
  • Quantidades muito limitadas de qualquer vinho Português comercializadas sob o nome duma só casta, o que impede escala para que essa casta se torne marca global :a Espanha está associada ao Tempranillo, Albarino, Verdejo, Godelo, etc, a Itália ao Nebbiolo, Sangiovese, etc, a Áustria ao Gruner Veltliner, a Grécia ao Assyrtico e Xinomavro, a Nova Zelândia ao Sauvignon Blanc, a Argentina ao Malbec, a Austrália ao Syrah e Cabernet, mas há muitos outros exemplos de sucessos similares.
  • Com a quase totalidade dos produtores com portfolios de vinhos ou marcas em número excessivo, com um número muito grande de marcas virtuais(não promovendo o nome da Vinha ou Quinta ou do próprio nome do produtor) torna-se, quase impossível,construir marcas à escala global, como sucede hoje com as dos demais Países nossos concorrentes.
  • Grande dificuldade para todos os produtores na distribuição e gestão da procura de vinhos de preços elevados em grande número de mercados.
  • Apesar das pontuações acima referidas as quotas de mercado das marcas região, continuam a ser muito reduzidas a escala global, se retirarmos o mercado da saudade.

 

O que é que as empresas nacionais deveriam reter dos seus homólogos internacionais?

Relativamente à sua pergunta, para que se possam seguir as atuais tendências internacionais que conduziram ao sucesso, há necessidade dum grande profissionalismo por parte de todos os intervenientes do setor em Portugal, pois só assim se poderá saber o que se está a passar a nível de produção no Mundo, a nível das preferências do on e off-tarde e, das tendências futuras definidas muitas vezes pelos melhores jornalistas Mundiais.

Como considero fundamental tentarmos em Portugal construir marcas globais (como tem sucedido com muitos outros Países produtores) seja, ou com nomes de regiões vinícolas, ou com uma ou mais das nossas uvas, só com esse profissionalismo vamos poder perceber que:

– Para que uma região Nacional possa ser marca à escala global, terá que se focar na produção duma só casta (tipo Rioja, Rueda, Ribera del Duero, Borgonha, Chianti, Santorini, etc) ou um número limitado, mas com grande volume (Merlot e Cabernet Sauvignon representam mais de 90% da produção de Bordeus, mas a região produz quase tanto como Portugal) ou ainda, sendo de menor dimensão, só produzir vinhos de altissima qualidade, como Napa, Barolo, Priorat, etc.

– Para que uma variedade de uvas Portuguesa possa vir a ser marca global, tal como muitas outras internacionais, só teremos sucesso se:

  • A sua identidade e qualidade for muito destacada, mesmo que produção não seja grande, tipo Nebbiolo (Barolo), Godello (Valdeorras). Um pouco como a Baga em termos Nacionais, pois apesar do reduzidíssimo volume, deverá ser a nossa variedade mais destacada em Inglaterra e Estados Unidos, mercados super importantes para a criação duma imagem e marca global.
  • Com uvas que apenas permitem a produção de vinhos de qualidade média e preços médios ,mas grandes volumes, tipo Pinot Grigio, Malbec, Tempranillo e Sauvignon Blanc (esta uva, na  Nova Zelândia, com um estilo fabricado facilmente associado a este País, tornou-se um sucesso Mundial de volume de vendas mas também margens)

Mas isto, também começa a suceder com várias uvas nativas, de Países até recentemente sem qualquer imagem, como os do Leste da Europa (Roménia, Arménia, Hungria e Moldávia)

 

Considera que as estratégias nacionais do setor são adequadas?

Na minha opinião, as estratégias nacionais nos últimos anos têm sido erradas, porque ao promoverem Portugal como especialista de blends, não respeitam um dos princípios do Marketing : produzir o que pode ser vendido, e não, tentar vender o que foi produzido.

Temos que compreender, que a procura Mundial se orienta, cada vez mais, para vinhos caracterizados por terem um estilo e identidade que possibilitam  serem bem percebidos pelos consumidores pela sua autenticidade, e que a oferta Mundial tanto do Velho como Novo Mundo é enorme.

E essa autenticidade só se consegue com :

– A produção de vinhos com uma casta predominante, o que obriga a toda uma nova filosofia na viticultura, depois de muita investigação que vise melhorar o nível qualitativo das castas nacionais, sabendo-se muito mais sobre as mesmas : clones ideais, solos ideais, altitude ideal, densidade ideal, etc.

A Itália é um bom exemplo destes sucessos na viticultura pois regiões que há 40 anos pouco valiam em termos de criação de valor, são hoje muito ricas, como a Tuscania (em Chianti e Brunelo, o valor das vinhas está super valorizado).

Mas, o mesmo sucede em Barolo, Cartize (para o Proseco), Veneto (para o Amarone), etc

– Se se usarem várias uvas, com o fabrico do mesmo estilo por um largo número de produtores, procurando-se seguir exemplos como : os Roses do nosso País na garrafa fantasia, os vários tipos de Vinho do Porto, o Proseco (apesar de neste só se usar uma uva) e, também um grande número dos nossos Vinhos Verdes mais comerciais.

 

A Região da Bairrada encontra-se numa fase de renascimento. O que falta para potenciar a região?

A Bairrada se bem que tenha vindo a beneficiar por:

  • Alguns produtores (infelizmente poucos)terem marcas destacadas em Portugal.
  • No mercado internacional, ter algumas marcas da região muito destacadas por jornalistas especializados (como Nova York) ou pelos escanções do on- trade premium (Inglaterra)
  • Pelo reconhecimento em Portugal, cada vez maior, da categoria e marca espumantes Baga, quase única a nível deste tipo de vinhos no nosso País, exceto a que utiliza uvas Alvarinho (mas com muito menor volume).

Infelizmente, já no mercado internacional, as dificuldades para essa categoria poder ganhar reconhecimento e procura, são muito grandes face aos desafios de várias marcas fortemente implantadas globalmente, tipo Cava, Proseco, Cremants, Franciacorta. Mas, como cada vez maiores áreas de vinhas abandonadas, pois a sua exploração não é minimamente rentável, para que esta tendência possa ser revertida, mais uma vez, seria necessário um grande foco na investigação vitícola, de modo a poder permitir, a quem invista em novas vinhas, ter a certeza que o investimento vai ser rentável.

Sendo um problema da Bairrada, é também um problema comum a muitas regiões do nosso País, pois muitos dos investimentos feitos nos últimos anos, em novas vinhas, não têm sido minimamente compensadores em termos de margens, como o mostram os preços das uvas e das terras com vinhas nessas regiões.

 

Atualmente também é produtor de vinhos. Quais os seus conselhos para os novos produtores?

Quanto aos meus conselhos a novos produtores as minhas recomendações, vão muito na linha do que já referi antes:

  • Antes do investimento na vinha, procurar saber em função do solo e exposição da futura vinha, qual a casta ou castas (neste caso sempre em número muito limitado) ideais, para a produção dum vinho de alta qualidade
  • Para ter sucesso a nível da criação duma marca, ajudará sempre se o produtor vier fazer um estilo de vinho igual ao de outros da mesma região. Fazer um estilo único, e exclusivo, não ajuda a construir uma marca, pela dificuldade para que o consumidor possa vir a. perceber e recordar mais tarde esse vinho. Por isso ajudará muito se fizer um vinho com a mesma ou mesma uvas usadas por outros produtores locais.
  • Sendo o objetivo dum investimento, garantir uma boa rentabilidade, optar pela ou pelas uvas que possam garantir um preço mais elevado de venda, entre as várias possíveis.

Se necessitar comprar terreno para a instalação da vinha, escolher o mesmo em função da uva ou uvas que selecionou. Isto porque, por exemplo, sabe-se que há uvas que permitem fazer melhores ou piores vinhos, em função de variáveis como as características do solo, altitude, exposição ao sol, proximidade ao oceano, etc.

Também, para ajudar a construir a marca, procurar evitar escolher nomes virtuais pois, na minha opinião, as marcas deverão procurar estar preferivelmente ligadas ao nome do produtor ou ao nome da vinha ou quinta.

E, idealmente, não só tentar focar-se numa só marca para toda a gama de vinhos produzidos, como evitar ter um grande portfólio de vinhos a vender: a simplicidade ajuda sempre, a perceber muito melhor o negócio, tanto pelo trade como pelo consumidor.

Só seguindo algumas destas minhas sugestões, poderemos vir a fazer face a um ambiente extremamente competitivo tanto da parte do Velho como do Novo Mundo.

Nos anos 70/80 as quotas de mercado dos vinhos de Portugal eram muito significativas, mas são hoje quase insignificantes contra as da França, Itália, Espanha, Austrália, Estados Unidos, Chile, Nova Zelândia, Argentina e África do Sul (nalguns mercados) e temos outros a emergir fruto de investimentos vitícolas recentes como Áustria, Grécia, Roménia, Hungria, Arménia, Moldávia, Eslovénia, Eslováquia, República Checa, etc.

Ainda por cima, quase todos, cada vez mais mencionados pelos maiores nomes da imprensa mundial especializada, pela qualidade dos seus novos vinhos, resultado dos investimentos nos últimos anos, a nível da sua viticultura.