Não perca esta entrevista ao Luís Cerdeira, atual Gestor e Enólogo do Soalheiro. Falamos da história da Soalheiro, situação atual da economia e o que podemos esperar no futuro da Soalheiro.

 

Conte-nos um pouco da vossa história.

A história do Soalheiro é uma história de famílias. Começou quando o meu pai e o meu avô plantaram a primeira vinha de Alvarinho em Melgaço em 1974. Esta vinha deu o nome à marca que surge em 1982 na garagem da nossa casa – o Soalheiro. Esta marca familiar foi dando os seus passos, eu e a minha irmã saímos de Melgaço para estudar, mas voltamos para assumir a gestão da empresa: ela é responsável das vinhas e das infusões e eu sou enólogo. A minha mãe continua a ajudar-nos, como sempre. Com o tempo esta lógica familiar passou a ser de muitas famílias e não de apenas uma: as famílias da nossa equipa, do nosso Clube de Produtores, todas elas são o Soalheiro. Orientados pelos mesmos valores, continuamos a ser uma empresa familiar, mas passámos de uma empresa da família para uma empresa de famílias.

 

A caminho dos 40 anos, a empresa decidiu apostar numa unidade de enoturismo, num clube de produtores, num núcleo de investigação e numa incubadora. O que vos move para esta constante necessidade de inovação e crescimento?

O crescimento não é uma preocupação para nós, o que temos é uma preocupação em nunca perder o equilíbrio, em avançar com os pés bem assentes na terra. Não numa terra qualquer, neste território de que somos inseparáveis. Esta identidade de respeito pela nossa história e tradição obriga-nos a querer sempre inovar. Pode parecer um paradoxo, mas não é. Por exemplo, plantámos a vinha de Alvarinho mais alta de Portugal a 1100 metros de altitude, na Branda da Aveleira, às portas do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Esta vinha experimental pretende perceber como o Alvarinho se comporta em condições distintas do habitual porque as alterações climáticas são uma evidência e podem vir a alterar o perfil das vinhas do vale, o que faz com que tenhamos de explorar novas possibilidades para podermos manter o perfil tradicional dos nossos vinhos no futuro.

 

No setor dos vinhos não é comum a implementação de Sistemas de Gestão de Investigação, Desenvolvimento e Inovação (IDI). Consideram ser este o caminho do setor?

Não tem a ver com o sector em que trabalhamos, tem a ver com a forma como gostamos de gerir o Soalheiro na procura da diferença. Ao passarmos a ser uma empresa de famílias, com uma equipa de 29 pessoas mais todas as famílias que fazem parte do Clube de Produtores, é normal que as ideias deixem de ser faladas à mesa, entre todos, durante o almoço. Por exemplo, criámos o primeiro Espumante de Alvarinho em 1995. O que aconteceria se hoje alguém da nossa equipa tivesse essa ideia e ela se perdesse?

Para mantermos uma tradição de inovação, temos de criar mecanismos e procedimentos para que as boas ideias se concretizem. Daí a certificação, por regulamentar esses procedimentos, sendo sem dúvida um factor competitivo que complementa as restantes certificações que também implementámos na empresa: certificação biológica das vinhas desde 2005 e certificação alimentar e ambiental de toda a empresa desde 2017.

 

Em resultado da procura da qualidade nas uvas dos vossos produtores criaram o Clube de Produtores de Monovarietais de Vinho Verde (VVCPM). Quais os objetivos traçados para este Clube de Produtores?

Temos três objectivos centrais: a qualidade das uvas, a sustentabilidade e o enoturismo.

A qualidade das uvas é uma preocupação óbvia, mas temos a sorte de a partilharmos com todos os produtores do nosso Clube – acompanhamo-los o ano inteiro e garantimos uma valorização condizente com todo o esforço e paixão que eles dedicam às suas vinhas. A sustentabilidade económica é um factor fundamental para a sustentabilidade social do território e só com boas perspectivas de vida conseguimos fixar cá os jovens e atraí-los para a viticultura – acreditamos no futuro da viticultura no nosso território. Essa sustentabilidade é, por definição, fundamental para o futuro do nosso território e também para o presente.

Sabemos que estamos na linha da frente no enoturismo no nosso território, estamos abertos todos os dias e temos uma oferta estruturada para responder ao crescente interesse dos visitantes. A preocupação ambiental e o contacto com a natureza são dos factores que mais sensibilizam quem nos visita e por isso temos projectos para o futuro que passam por criar rotas de enoturismo que abranjam o nosso Clube de Produtores, com uma tónica centrada nas vinhas e na sustentabilidade.

 

Recentemente lançaram o primeiro Alvarinho Biológico produzido sem adição de sulfitos. Quais são os maiores desafios deste tipo de produção?

O maior desafio destes vinhos são os sabores finais muito diferentes dos existentes actualmente nos outros Soalheiros. O Nature, que não tem adição de sulfitos, e o Terramatter, um vinho com depósito e sem filtração, são vinhos que nos transportam para os sabores do passado, para os vinhos que se faziam antigamente.

Engraçado como um vinho como o Terramatter nos mostra que passado e futuro muitas vezes se unem quando experimentamos: ao fazer um vinho sem filtração, damos oportunidade a quem o prova de o beber mais ou menos untuoso, mais ou menos frutado ou vegetal, consoante o agitar da garrafa antes de o servir. Hoje em dia estão tão em voga os conceitos de obras de arte abertas, finalizadas pelo olhar de quem as vê, ou, na gastronomia de autor, de pratos finalizados na mesa, com o toque do comensal, e ao experimentarmos a partir de técnicas ancestrais acabámos por recriar esse conceito no vinho: o Terramatter que cada um prova é sempre finalizado por quem o serve.

 

Em tempos de imperioso distanciamento social, a Quinta do Soalheiro reinventou-se, e concebeu provas digitais comentadas, e um kit de prova “Soalheiro Digital Tasting”. Quais foram os maiores impactos desta aventura?

Criar uma experiência de enoturismo e não um kit com vinhos para vender – este é um bom exemplo do que nos leva a ter procedimentos para a inovação definidos e implementados. Quando surgiu a pandemia e as visitas ao Soalheiro foram canceladas, a nossa equipa de Enoturismo teve a ideia de criar experiências de enoturismo digital. Concretizámos a ideia, demos-lhe o nome de Digital Tasting e rapidamente demos a possibilidade às pessoas de, na sua casa, poderem receber e experienciar os nossos vinhos e os sabores do nosso território com o acompanhamento de um vídeo onde as guiamos nessa descoberta.

 

O que podemos esperar do futuro da Quinta do Soalheiro?

O mesmo de sempre, ou seja, inovação que pretende manter a consistência e criar tradição.

Luís Cerdeira

Soalheiro