A MagazineHM #76 apresenta a entrevista realizada a Paulo Gaspar, CEO da BRAINR, empresa de software que “vem trazer ordem ao caos da fábrica”, com especialização no setor agroindustrial.

Entusiasta de tecnologia, investidor anjo e empreendedor autodidata, gere projetos, TI e marketing no Grupo Lusiaves. Dirige também a Casper Ventures, que investe no futuro da alimentação e em startups de software como serviço para empresas. Foi cofundador de uma das principais agências de publicidade de Portugal, a Funnyhow, e é presidente da holding Triun SGPS, focada em investimentos imobiliários e agrícolas.

Entrevista

Paulo Gaspar
1. A BRAINR nasceu com a missão de digitalizar e transformar a indústria alimentar através de software e integração em toda a linha. Que lacunas identificou no mercado e o que motivou a criação destas soluções?

Eu cresci a ver fábricas por dentro, a lidar com margens curtas, decisões rápidas e uma pressão constante para produzir mais, melhor e com menos erro.

O que sempre me impressionou foi o contraste. Fábricas com máquinas altamente automatizadas, mas processos críticos ainda geridos com papel, Excel e telefonemas. Planeamento de um lado, execução do outro, qualidade noutro sistema, logística noutro ainda. Tudo fragmentado.

A lacuna era essa. Não faltava tecnologia, faltava um sistema pensado especificamente para a realidade alimentar, que ligasse planeamento, produção, qualidade e logística de forma simples e prática. A BRAINR nasce para ser esse cérebro operacional da fábrica, construído por pessoas que sabem o que custa estar no chão de fábrica todos os dias.

2. Que desafios específicos no chão de fábrica e nos processos tradicionais de produção industrial na alimentação é que a BRAINR pretende resolver? E como é que o uso de tecnologia cloud-native e dados em tempo real muda a forma como as equipas trabalham?

O problema central é a falta de controlo em tempo real. As fábricas descobrem desvios tarde demais. Perdas de rendimento, erros de produção, excesso de stock ou falhas de qualidade só aparecem quando já é caro corrigir.

Com dados em tempo real, a conversa muda. Um erro é bloqueado no momento. Um desvio de rendimento é visível na linha certa, no turno certo. Um problema de planeamento pode ser ajustado antes de causar impacto em cadeia.

Ser cloud-native permite algo essencial para esta indústria. Implementações rápidas, atualizações constantes e integração com máquinas, balanças, etiquetadoras e ERPs já existentes. As equipas deixam de trabalhar às cegas e passam a trabalhar com confiança nos dados.

3. Muitos clientes já registaram ganhos concretos. Pode partilhar um caso emblemático que ilustre esse impacto e o que a BRAINR traz para os trabalhadores e gestores?

Hoje a BRAINR já suporta mais de 25% da produção de carne em Portugal. Isso não acontece por acaso. Acontece porque resolvemos problemas reais.

Em fábricas de grande escala, conseguimos reduzir erros de picking praticamente a zero, melhorar rendimentos linha a linha e tornar a rastreabilidade um processo de minutos, não de horas ou dias. Em alguns casos, um recall que antes parava a fábrica passou a ser resolvido de forma cirúrgica.

Para os operadores, o impacto é imediato. Menos papel, menos confusão, menos pressão. Para os gestores, é finalmente possível tomar decisões com base no que está mesmo a acontecer e não em relatórios atrasados. A fábrica ganha controlo e previsibilidade.

brainr who are we
Equipa BRAINR
4. A plataforma BRAINR incorpora inteligência artificial. Como é que esta tecnologia está a ser usada e de que forma potencia as capacidades das equipas?

É importante ser muito claro neste ponto. A BRAINR levantou mais de 11 milhões de euros, a maior ronda global dedicada à digitalização de fábricas alimentares com inteligência artificial (IA). Mas isso não significa que tudo na BRAINR seja feito com IA hoje.

O que fizemos foi preparar a base certa. A BRAINR é cloud-native, com dados estruturados, em tempo real e integrados de ponta a ponta. Isso coloca-nos numa posição única para evoluir rapidamente com inteligência artificial de forma séria e responsável.

Estamos a introduzir IA onde ela faz sentido. Planeamento, previsão, análise de desvios, apoio à decisão. Não para substituir pessoas, mas para reduzir incerteza e antecipar problemas.

Muitas soluções on-premise vão ter enormes dificuldades nesta transição. Algumas não vão conseguir fazer esse salto. A diferença da BRAINR é que fomos pensados desde o primeiro dia para este momento.

5. A digitalização da produção alimentar está a acelerar. Como vê a evolução das fábricas e o papel da BRAINR? Como será a fábrica do futuro?

As fábricas estão cansadas de promessas vagas. O que procuram agora são soluções que funcionem rápido, que se adaptem à realidade e que tragam impacto mensurável.

A fábrica do futuro não é futurista. É simples, conectada e previsível. Sistemas integrados, dados em tempo real, menos improviso e menos desperdício. Tecnologia que acompanha o ritmo da operação, em vez de a travar.

A BRAINR quer ser o sistema operativo dessa fábrica. Um parceiro que entende a indústria alimentar porque vem dela. E que ajuda as empresas a produzir melhor, com mais controlo, mais margem e menos stress operacional.

Paulo Gaspar, CEO

BRAINR