Portugal: um Player na Defesa?
Nos últimos anos, Portugal, no contexto da defesa, tem assistido a uma evolução notável nas exportações de bens com utilização militar, um fenómeno que até aqui era marginal, mas que começa a ganhar dimensão e atenção tanto pelo dinamismo registado como pelo enquadramento de apoio europeu. Dados recentes do Banco de Portugal mostram que estas exportações aumentaram cerca de 77% entre 2022 e 2025, embora o seu peso no total de vendas ao exterior continue abaixo de 1%. Este crescimento reflete o aumento global da procura por produtos militares e a diversificação de mercados e de categorias de equipamentos, com destaque para os drones, cuja exportação era praticamente inexistente em 2021 e já representa cerca de 21% das exportações de bens militares em 2025.
Casos de Sucesso
O crescimento deste segmento tem sido impulsionado por empresas portuguesas especializadas, como a Tekever e a Beyond Vision, que conseguiram expandir a sua presença internacional, com contratos significativos na União Europeia, nos Estados Unidos e em outros mercados. O número de empresas portuguesas identificadas como ativas no setor da defesa tem vindo a aumentar, ultrapassando atualmente as 380 unidades, o que evidencia um ambiente interno cada vez mais favorável à diversificação e especialização industrial. Estes números refletem um reforço das capacidades tecnológicas e produtivas do país, e mostram que o setor de defesa, embora ainda pequeno em termos relativos, começa a consolidar-se como um nicho com potencial de crescimento sustentável.
A Realidade do Financiamento Europeu para a Defesa
O crescimento recente deste mercado coincide com a entrada em vigor do programa europeu SAFE (Security Action for Europe), um instrumento financeiro destinado a apoiar os investimentos em capacidades de defesa dos Estados- Membros através de empréstimos a longo prazo, com condições favoráveis. Portugal aderiu formalmente ao SAFE em 2025, garantindo acesso a cerca de €5,8 mil milhões para modernizar as Forças Armadas e reforçar capacidades em terra, mar, ar e espaço. Este financiamento permite investir na aquisição e produção de drones, veículos blindados, fragatas, sistemas de satélite e outros equipamentos estratégicos, criando oportunidades para empresas portuguesas integrarem cadeias de fornecimento europeias e aumentar a sua competitividade internacional.
A conjunção do crescimento das exportações de bens militares e do apoio do SAFE reforça a ideia de que este segmento pode consolidar-se como uma área de alto valor acrescentado. O financiamento europeu aumenta a escala de produção, promove parcerias com outros Estados-Membros e reduz barreiras tecnológicas, permitindo que empresas portuguesas desenvolvam produtos mais sofisticados e competitivos. Embora o impacto macroeconómico ainda seja limitado, este nicho já mostra sinais claros de dinamismo e especialização, podendo complementar sectores mais maduros como os serviços digitais e a indústria tecnológica avançada.
Em suma, o aumento das exportações de bens com utilização militar em Portugal deixa de ser um fenómeno marginal e emerge como um nicho com potencial de crescimento sustentado. A combinação de aumento da procura internacional, experiência tecnológica das empresas nacionais e financiamento europeu através do SAFE aponta para uma trajetória de expansão que poderá contribuir de forma mais significativa para a diversificação e sofisticação do modelo exportador português, reforçando o papel do país em cadeias de valor europeias e internacionais de defesa.
João Ferreira da Cruz
Economista