Custos Laborais e Competitividade Empresarial: Desafios num Novo Ciclo Económico

Num contexto económico em constante mutação, as empresas portuguesas enfrentam, em 2025, uma realidade particularmente exigente: o aumento significativo dos custos laborais. Segundo dados recentes do Eurostat, Portugal registou no quarto trimestre de 2024 um acréscimo de 9,6% nos custos do trabalho por hora – valor que supera largamente a média da União Europeia (4,3%) e da Zona Euro (3,7%).

Este crescimento acelerado dos encargos com o trabalho decorre de uma conjugação de factores: a actualização do salário mínimo nacional, que passou para 870 euros mensais em 2025; a persistente escassez de mão-de-obra em sectores estratégicos; e a pressão inflacionista, que tem conduzido à revisão em alta dos salários para compensar a perda de poder de compra. Acresce ainda um maior grau de exigência por parte dos trabalhadores, num mercado que permanece competitivo do lado da oferta.

Para o tecido empresarial nacional – composto maioritariamente por micro, pequenas e médias empresas – este aumento dos custos representa um verdadeiro teste à sua resiliência e capacidade de adaptação. Margens já de si estreitas são ainda mais pressionadas, e muitos planos de investimento são adiados ou reformulados. Em sectores como o comércio, a restauração, o turismo e a construção civil, altamente dependentes de mão-de-obra, a dificuldade é particularmente sentida.

Neste cenário, a competitividade das empresas portuguesas depende cada vez menos do custo do trabalho e cada vez mais da sua capacidade de gerar valor acrescentado, de aumentar a produtividade e de se diferenciar no mercado. A resposta não pode passar apenas por conter custos, mas sim por repensar processos, investir em tecnologia e qualificar recursos humanos.

A automação de tarefas repetitivas, a digitalização dos canais de venda e gestão, e a introdução de ferramentas de inteligência artificial são caminhos possíveis para reduzir a dependência de trabalho intensivo e aumentar a eficiência. Simultaneamente, o investimento na formação contínua dos trabalhadores – nomeadamente em competências digitais, técnicas e interpessoais – pode contribuir para uma maior produtividade individual e colectiva.

Outro eixo fundamental é a flexibilização dos modelos de trabalho. O trabalho remoto, a adaptação de horários e a reorganização das equipas em função de objectivos, em vez de horários fixos, podem representar ganhos de eficiência, satisfação e retenção de talento. Num mercado de trabalho onde os perfis qualificados são escassos, a capacidade de atrair e manter colaboradores passa a ser uma vantagem competitiva.

Importa, ainda, referir que os fundos europeus, nomeadamente os instrumentos do Portugal 2030 e do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), oferecem oportunidades concretas para financiar projectos de modernização, digitalização e qualificação. As empresas devem estar atentas a estes mecanismos e desenvolver projectos estruturados que lhes permitam aceder a apoios e ganhar escala.

Em síntese, o aumento dos custos laborais não deve ser visto apenas como uma ameaça, mas como um ponto de viragem. As empresas que conseguirem alinhar a sua estratégia com a transformação digital, a valorização do capital humano e a inovação estarão mais bem posicionadas para competir – não pelo preço, mas pela qualidade, eficiência e diferenciação. O desafio é grande. Mas também é a partir de momentos como este que se moldam as empresas mais resilientes e preparadas para o futuro.

João Ferreira da Cruz

Economista