Ǫuem Paga o Risco Climático?
As projeções macroeconómicas para 2026 elaboradas por instituições como o Banco de Portugal, o FMI, a OCDE e a Comissão Europeia apontam para um cenário de estabilidade relativa da economia portuguesa, ainda que marcado por fragilidades. As tempestades de 2026 não devem ser interpretadas apenas como episódios meteorológicos extremos. Representam um teste à arquitetura financeira do Estado português e um sinal claro de que o risco climático passou a ser um risco económico estrutural. Para o tecido empresarial, compreender a forma como o Estado responde a estes choques — e como poderá reformular os seus instrumentos financeiros — tornou-se uma questão estratégica.
A Resposta Pública em Três Planos Interligados
O primeiro é o da emergência, centrado na liquidez e na estabilização imediata. Perante destruição de infraestruturas, interrupções na atividade e perdas operacionais, o Estado mobiliza fundos de emergência municipal, reservas orçamentais e, frequentemente, linhas de crédito com garantia pública através do Banco Português de Fomento. Pode ainda recorrer à reprogramação orçamental e a apoios extraordinários dirigidos às empresas afetadas. Neste contexto, a rapidez de acesso aos instrumentos disponíveis depende fortemente da robustez financeira e organizacional das próprias empresas. Organizações com contabilidade rigorosa, seguros adequados e planos de contingência estruturados conseguem responder com maior eficácia. A tempestade não cria apenas danos; revela vulnerabilidades pré-existentes e distingue empresas preparadas de empresas fragilizadas.
Num segundo momento surge a fase de compensação e reconstrução. Aqui entram em jogo os seguros, os fundos europeus — nomeadamente o Fundo de Solidariedade da União Europeia — e eventuais reprogramações de instrumentos como o PRR. Esta fase levanta uma questão central: quem suporta, em última instância, o custo do risco climático? A evolução dos mercados internacionais aponta para o aumento dos prémios de seguro, maior seletividade na cobertura e exigências mais rigorosas na avaliação de risco. Setores particularmente expostos, como a construção, a agricultura, o turismo ou a logística, poderão enfrentar um agravamento do custo do capital. Ainda assim, a reconstrução também abre espaço a oportunidades. Projetos que incorporem critérios de resiliência, eficiência energética e adaptação climática tendem a beneficiar de incentivos públicos e de financiamento verde, posicionando melhor as empresas num ambiente regulatório em transformação.
O terceiro plano é o mais estrutural e, provavelmente, o mais transformador. Progressivamente, o risco climático deverá ser integrado na própria lógica do Orçamento do Estado e na política de investimento público. Isso implica avaliações de impacto climático em grandes projetos, reforço da emissão de obrigações verdes, eventual criação de mecanismos públicos de mutualização de risco e ajustamentos fiscais que incentivem a adaptação. Para o setor empresarial, as implicações são profundas: maior pressão regulatória, reforço dos critérios ESG (Environmental, Social and Gouvernance) e crescente exigência de métricas de sustentabilidade no acesso a financiamento. O risco climático deixa, assim, de ser apenas uma variável reputacional, que afeta a imagem e a confiança, para se tornar um fator financeiro objetivo, com impacto direto no custo do capital e nas decisões de investimento.
O Mapa de Ação
Perante este enquadramento, as empresas não podem limitar-se a reagir a cada evento extremo. Devem rever as suas coberturas de seguro, mapear vulnerabilidades físicas e operacionais, integrar cenários climáticos na gestão de risco e acompanhar de perto os instrumentos públicos e europeus disponíveis. A resiliência deixou de ser um elemento acessório da estratégia empresarial para se tornar um requisito essencial de competitividade. Num contexto em que o clima influencia o orçamento público, os mercados financeiros e as condições de acesso a capital, quem antecipar esta transformação estará mais bem preparado para prosperar num ambiente económico cada vez mais moldado pela variável climática.
João Ferreira da Cruz
Economista