Índice

  1. Enquadramento e lógica de financiamento
  2. O que é elegível em Inovação Produtiva e como enquadrar o projeto
  3. Baixa densidade vs. outros territórios: implicações práticas
  4. Incentivos STEP: tecnologias críticas e cadeias de valor estratégicas
  5. Como conjugar incentivos financeiros e incentivos fiscais, com segurança
  6. Exemplos de combinação por setor

Enquadramento e lógica de financiamento

O Sistema de Incentivos à Inovação Produtiva (PT2030) é hoje a peça âncora para financiar investimento empresarial que altera de forma estrutural a capacidade produtiva e a competitividade externa, tanto na indústria transformadora como em energia, biotecnologia e, em certos contextos, turismo diferenciador.

O que é elegível em Inovação Produtiva e como enquadrar o projeto

Em termos técnicos, o projeto tem de se enquadrar num investimento inicial: criar um estabelecimento, aumentar capacidade de forma material (com prova objetiva de expansão), diversificar para produtos/serviços não produzidos anteriormente, ou implementar uma alteração fundamental do processo global (automação, digitalização, novos métodos de fabrico, rastreabilidade e qualidade). O foco é produzir bens e serviços transacionáveis e internacionalizáveis, com elevado valor acrescentado e incorporação nacional, suportados por um plano de mercado credível, engenharia de execução, cronograma realista e viabilidade económico-financeira.

Baixa densidade vs. outros territórios: implicações práticas

Nos territórios de baixa densidade, o racional de coesão traduz-se, em regra, em condições mais favoráveis e maior tração para projetos que criem emprego qualificado e aumentem produtividade local, mantendo a exigência de inovação e orientação para mercados externos.

Nos restantes territórios, o financiamento tende a ser mais competitivo e, em alguns avisos, pode assumir um modelo misto: uma parcela a fundo perdido e uma componente reembolsável, potencialmente convertível mediante o cumprimento de metas contratualizadas (exportações, emprego, desempenho operacional e/ou indicadores de inovação e sustentabilidade), o que reforça a necessidade de uma modelação prudente de tesouraria e de KPI desde o desenho do projeto.

Em ambos os casos, a disciplina do efeito de incentivo é crítica: decisões irreversíveis (encomendas, contratos, início físico) devem respeitar o timing da candidatura e do pedido de auxílio, sob pena de risco de inelegibilidade.

Incentivos STEP: tecnologias críticas e cadeias de valor estratégicas

A STEP (Strategic Technologies for Europe Platform) introduz uma camada reforçada para tecnologias estratégicas e cadeias de valor críticas, com avisos dedicados para investimento produtivo e, em paralelo, para I&D e demonstração avançada. Na prática, a STEP é especialmente relevante em energia (tecnologias limpas e eficiência de recursos), biotecnologia (biofabricação e produtos críticos) e digital/deep tech (componentes, software e serviços críticos), valorizando projetos que fabricam produtos finais, componentes e máquinas específicas, matérias-primas críticas ou serviços especializados intrínsecos ao fabrico, e que escalem rapidamente do piloto à produção comercial.

Exemplos típicos incluem: uma unidade industrial para fabricar componentes críticos para armazenamento e eletrificação, com teste e certificação; uma linha de biomanufacturing com fermentação, purificação, controlo de qualidade e automação, com plano de escalabilidade e compliance; ou a industrialização de uma solução digital crítica para indústria (edge/IA aplicada ao chão de fábrica) com capacidade de produção, integração e suporte especializado.

Como conjugar incentivos financeiros e incentivos fiscais, com segurança

A otimização real acontece quando o promotor conjuga incentivos financeiros com incentivos fiscais, sem dupla contagem e respeitando limites de auxílio.

A abordagem mais segura é estruturar o investimento por blocos e por natureza de despesa: a industrialização e capacidade produtiva são candidatas naturais à Inovação Produtiva (incluindo STEP quando aplicável); o esforço de I&D e desenvolvimento experimental deve ser organizado para SIFIDE (dossiê técnico, contabilidade analítica, registo de tempos e evidências de incerteza/validação); e o investimento complementar não comparticipado, ou fases posteriores de expansão, pode beneficiar do RFAI e, em projetos de grande escala e interesse estratégico, de benefícios fiscais contratuais.

Assim, a subvenção melhora o arranque e reduz capex líquido, enquanto os incentivos fiscais reduzem IRC futuro e reforçam a rentabilidade do ciclo de vida.

Exemplos de combinação por setor

Um exemplo de combinação em biotecnologia é financiar a instalação industrial (equipamentos, automação, laboratório de QC) via Inovação Produtiva/STEP e, em paralelo, usar SIFIDE para ensaios, otimização de rendimento, métodos analíticos e validações, mantendo RFAI para capex adicional de expansão. Na indústria e energia, o mesmo racional aplica-se à automação e digitalização do processo com metas de produtividade e eficiência, reservando SIFIDE para desenvolvimento de novos processos, materiais ou software industrial. No turismo, a elegibilidade é mais forte quando o investimento cria oferta internacionalizável (enoturismo, natureza, bem-estar), com digitalização da experiência e sustentabilidade mensurável, traduzida em maior valor por hóspede.

Nota operacional final

Operacionalmente, é crítico mapear equipamentos, software e intangíveis, garantir contabilidade analítica por bloco/projeto, e manter um arquivo robusto de procurement e evidências de execução, assegurando coerência com o efeito de incentivo e reduzindo risco em auditoria.

Beatriz Naia

Consultora de Investimentos e Estratégia