Deve a sua Empresa Suportar Sozinha o Investimento em I&D?

A esmagadora maioria dos empresários investe diariamente em Investigação & Desenvolvimento (I&D) sem saber que está a assumir um risco desnecessário. Com os apoios e incentivos fiscais certos, é possível proteger a tesouraria e transformar esse esforço contínuo no ativo mais valioso da empresa.

O Paradoxo da Inovação e o Peso na Tesouraria

Todas as semanas, as empresas mobilizam talento e meios para responder ao mercado. Desenvolvem novos produtos e soluções, otimizam processos internos e criam protótipos para clientes, num esforço contínuo de inovação, investigação e desenvolvimento. Do ponto de vista da gestão tradicional, este trabalho é frequentemente visto apenas como custo operacional. No entanto, representa um forte investimento em áreas determinantes como recursos humanos especializados, tecnologia, ensaios e matérias-primas, assumido inteiramente pela empresa.

Portanto, existe aqui um paradoxo que afeta a competitividade do tecido empresarial. Por um lado, os gestores sabem perfeitamente que a ausência de inovação conduz à estagnação e à perda gradual de margens num mercado global cada vez mais agressivo. Por outro lado, o investimento em I&D é muitas vezes visto como um encargo pesado para a tesouraria, com um retorno incerto e a longo prazo.

Contudo, existem empresas que olham para este desafio sob uma perspetiva completamente distinta. Em vez de financiarem todo o esforço de desenvolvimento com capitais próprios, utilizam uma estrutura integrada de incentivos financeiros e benefícios fiscais. O resultado torna-se simples. Transferem grande parte do risco financeiro para instrumentos públicos de apoio, preservam o fundo de maneio e retêm a totalidade do valor e da propriedade intelectual gerados.

Como os Incentivos Libertam Liquidez

A primeira barreira que afasta muitos empresários dos apoios públicos é a convicção errada de que o I&D pertence exclusivamente a laboratórios universitários, indústrias farmacêuticas ou empresas com “batas brancas”. A definição técnica e legal de I&D abrange qualquer atividade orientada para a superação de uma incerteza científica ou técnica que não possa ser resolvida pelo estado da arte disponível no mercado.

Quando uma organização reconhece e estrutura formalmente estas atividades, desbloqueia um duplo mecanismo de financiamento que altera radicalmente as contas de qualquer projeto. Por exemplo:

  1. Financiamento ex-ante a fundo perdido: Os sistemas de incentivos dedicados à I&D empresarial, que podem ser desenvolvidos quer em projetos individuais quer em copromoção, oferecem taxas de apoio não reembolsável que atingem habitualmente entre 50% e 80% das despesas elegíveis. Estes incentivos asseguram a comparticipação de despesas estruturais, desde os custos com quadros técnicos qualificados até ao investimento em tecnologia, ensaios laboratoriais e desenvolvimento de protótipos.
  2. Eficiência fiscal ex-post: A parte do investimento não coberta pelo subsídio a fundo perdido, bem como projetos desenvolvidos fora de candidaturas comunitárias mas enquadradas em I&D, podem ser enquadrado no Sistema de Incentivos Fiscais em Investigação e Desenvolvimento Empresarial. O SIFIDE II, por exemplo, permite deduzir diretamente à coleta de IRC uma percentagem que varia entre 32,5% (taxa base) e 82,5% (taxa incremental para empresas que aumentaram o seu investimento médio face aos dois anos anteriores). Caso a empresa não tenha coleta suficiente no próprio ano, o crédito fiscal pode ser reportado durante 12 exercícios fiscais consecutivos.

E sim, é possível. A conjugação destes dois instrumentos permite que um projeto com um custo nominal de 200 mil euros possa ter um custo líquido real inferior a 50 mil euros para a empresa. O risco de inovar deixa de ser um travão ao crescimento e passa a ser uma alavanca de eficiência operacional e financeira.

O Impacto Real da I&D na Solidez da Empresa

O desagravamento fiscal e o acesso a fundos comunitários asseguram liquidez e estabilidade no curto prazo. No entanto, o verdadeiro retorno da I&D mede-se naquilo que a empresa passa a colocar no mercado, posteriormente, com a inovação gerada.

Em termos práticos, um projeto estruturado de I&D traduz-se em resultados muito concretos na sua operação, diferenciação e capacidade de crescimento:

  • Novos produtos e soluções de maior valor acrescentado: A empresa ganha capacidade para lançar novas gamas, incorporar materiais mais eficientes e desenvolver soluções à medida que a concorrência não consegue. Ao elevar a complexidade e a qualidade do que vende, melhora a margem bruta de cada venda.
  • Processos operacionais mais eficientes: O desenvolvimento interno permite conceber métodos de produção, automatizar tarefas críticas, reduzir o desperdício de matérias-primas e diminuir consumos energéticos. A operação torna-se mais ágil e menos dependente de tecnologia e licenças externas.
  • Reforço do património e proteção do negócio: A par do impacto direto nas vendas, todo o conhecimento desenvolvido fica consolidado dentro de portas. Seja através de segredo industrial, modelos de utilidade, patentes ou software próprio, a empresa cria barreiras defensivas contra a concorrência.

O Impacto Direto na Avaliação da Empresa e nas Operações de Corporate Finance

Nos processos de avaliação de empresas, captação de capital ou operações de fusões e aquisições (M&A), a determinação do valor do negócio assenta em dois vetores essenciais. A capacidade de gerar resultados operacionais sustentáveis (o EBITDA) e o múltiplo setorial que o mercado está disposto a pagar por esse perfil de rendibilidade.

O investimento contínuo em I&D tem um impacto direto em ambas as variáveis. Por um lado, melhora a rendibilidade operacional através da oferta de soluções diferenciadas. Por outro, eleva o múltiplo de avaliação ao criar vantagens competitivas difíceis de replicar, reduzindo o risco percecionado pelos investidores.

Para ilustrar este impacto, consideremos duas empresas com uma faturação anual idêntica de 10 milhões de euros no mesmo setor:

  • A Empresa A não tem uma estratégia estruturada de investimento em I&D nem recorre a incentivos: As melhorias de produtos e processos são pontuais e suportadas a cem por cento por capitais próprios. Sem capacidade para diferenciar a oferta de forma consistente, compete essencialmente por preço em produtos com margens comprimidas. Apresenta uma margem de EBITDA de 8% a 10% (gerando 800 mil a 1 milhão de euros). Numa eventual transação, os investidores aplicam um múltiplo conservador, entre 4 a 5 vezes o EBITDA, pelo facto de a empresa não deter tecnologia diferenciadora e o seu negócio ser facilmente replicável. O valor de mercado situa se entre os 3,2 e os 5 milhões de euros.
  • A Empresa B estrutura a sua I&D com recurso a fundos comunitários e incentivos fiscais: Utiliza estes mecanismos para absorver a maioria dos custos de desenvolvimento, lançando novos produtos e serviços de maior valor acrescentado a um custo reduzido de capital próprio. Esta aposta contínua permite lhe atingir uma margem de EBITDA de 15% (1,5 milhões de euros), por exemplo. Adicionalmente, pelo posicionamento estratégico que conquistou no seu setor e pela solidez da sua proposta de valor, o mercado atribui-lhe um prémio de risco, aplicando múltiplos entre 7 e 9 vezes o EBITDA. O valor da empresa ascende para um intervalo entre os 10,5 e os 13,5 milhões de euros.

Ao recorrer aos instrumentos de apoio para financiar a I&D, a empresa não está apenas a poupar nos seus custos correntes. Está a construir a diferenciação que irá alavancar diretamente a rentabilidade e o valor patrimonial do negócio.

A I&D como Motor de Valorização

No dia a dia, a diferença entre encarar a I&D como um custo ou como uma estratégia resume-se à forma como ela é financiada. As empresas que continuam a suportar sozinhas todo o esforço deste processo acabam por limitar a sua capacidade de crescimento e pressionar a tesouraria sem necessidade.

Recorrer aos fundos comunitários e aos incentivos fiscais permite absorver a maior parte desse encargo financeiro e proteger a liquidez da operação. Mais do que uma poupança no exercício corrente, este enquadramento dá origem a soluções diferenciadas e melhora a rentabilidade operacional, dois fatores determinantes para aumentar de forma sustentada o valor da empresa no mercado.

Rui Pereira

Consultor de Investimentos e Estratégia