Investigação & Desenvolvimento no Exército – Na Primeira Pessoa
A decisão de ingressar no Exército foi motivada em grande parte pela ideia ingénua de que as Forças Armadas seriam o centro da Investigação & Desenvolvimento (I&D) nacional, à semelhança do que acontece na América… Por improvável que possa parecer, dada a nossa pequenez, observei isso mesmo durante toda a minha permanência nas fileiras, contrariando a norma: “na tropa não se inventa!”. A Academia Militar incentivou a inovação e a criatividade desde cedo, com a atribuição de Prémios de I&D; na década de 90′.
As Transmissões atribuíram a missão para criação da primeira unidade de Guerra Electrónica e prepararam-se para a Guerra de Informação, desenvolveram projectos de Segurança de Instalações e implementaram fisicamente sistemas para a determinação experimental do Diagrama de Radiação de antenas, conceberam e criaram explosores electrónicos para as Operações Especiais, criaram um método de determinação real da altitude das camadas ionosféricas sem necessidade de recorrer a Sondadores, elaboraram estudos para a utilização de “drones” em alternativa às comunicações satélite, conceberam, desenvolveram e testaram um Radiogoniómetro HF de Onda de Superfície por processamento digital da Frente de Onda; as Tropas Paraquedistas desenvolveram Sondas Luminosas para apoio a saltos nocturnos dos Precursores, implementaram a primeira Videoconferência Táctica e em conjunto com o Estado-maior do Exército, EME, apoiaram o Projecto “PRECURSOR” através do qual foi desenvolvido o primeiro “drone” nas Forças Armadas no início do milénio, coincidente com a criação do Centro de Investigação da Academia Militar, CINAMIL.
Na mesma altura, foi criada no EME a sigla “Sistema Aéreo Pilotado Remotamente” (RPAS) que viria a ser adoptada pela Organização Internacional da Aviação Civil, ICAO passados 12 anos; foi criado o Centro de Experimentação, CEMTEx para validação, teste operacional e certificação dos trabalhos desenvolvidos pela academia e lançado o concurso Inovação nas Forças Armadas. Testemunhei todos estes factos na primeira pessoa e inúmeras vezes o pensamento focou-se em utilizar a inovação para salvaguardar a integridade do elemento mais valioso: o combatente.
Fora do Exército, Dentro da Defesa
Já após a saída do Exército, co-fundámos os grupos de trabalho europeus que conduziram à regulamentação da actividade dos RPAS, WG73/ SG4 e WG93 da EUROCAE, onde fomos o C3 focu-group leader; o sistema aéreo que desenvolvemos foi sinalizado pelos israelitas e despertou o interesse dos americanos para eventual aplicação no Apoio Aéreo Próximo (CAS). Integramos actualmente o consórcio do projecto ITEA 4 · Project · 22014 NADIR para prevenção de desastres naturais e com aplicação directa na Defesa, dual-use, portanto; igualmente concluiremos em breve um protótipo de um veículo para transporte urbano individual, ecológico, com aplicação directa no transporte logístico e em “combat bots”.
E agora?
Portugal ainda não fez a “pega de caras” à questão fulcral na Defesa: a Defesa é uma obrigatoriedade do Estado. Quanto é que nós, cidadãos, estamos dispostos a pagar do nosso bolso para ajudar a Ucrânia, por exemplo? Quanto estaremos dispostos a pagar para não termos de enviar os nossos filhos para a frente de combate? E quanto estaremos dispostos a pagar para assegurar uma prontidão operacional que dissuada eventuais confrontos bélicos, nem que para isso tenhamos de assumir a passagem pelas fileiras de todos os jovens? “É muito tempo! É tempo perdido!”… É, sim, um assunto tabu para todos os governos. A ameaça parece remota, mas poderemos ser obrigados a envolver-nos de um momento para o outro sem que estejamos devidamente preparados, como já aconteceu antes, na Grande Guerra.
- Deve ser observada a confidencialidade no que respeita aos processos e meios de Defesa.
- O Estado tem de apoiar projectos potencialmente relevantes até final do nível TRL5;
- Havendo uma aplicação dual-use, os empresários irão interessar-se e dar-lhes continuidade;
- As Forças Armadas têm de ser clientes da inovação nacional;
- A criatividade não se decreta: devem implementar-se mecanismos honestos de captação de ideias e obrigar os diversos intervenientes no desenvolvimento a apresentarem resultados práticos, reais e concretos.
Um militar não quer ir para a guerra: fá-lo porque quer poupar os seus velhos e as suas crianças. Dêmos-lhe a melhor tecnologia para que se possa proteger e regressar a casa!
NOTA: 0% de IA
CTO da Dragonpraxis