3 Choques num Ano: o Plano de Continuidade Energética é Urgente
Dos apagões na Península Ibérica aos fenómenos meteorológicos extremos e às subidas do preço do gás, os riscos energéticos ameaçam a produção e as margens das fábricas. Saiba como manter a produção em funcionamento e fazer com que o planeamento de continuidade energética compense.
Shailendra Tomar, Diretor-Geral, Preflet GmbH

Para lá da Execução: Aprender com os Projetos
Entre abril de 2025 e março de 2026, os fabricantes portugueses viveram três choques energéticos de natureza diferente. Um apagão parou o país inteiro durante meio dia. Uma tempestade deixou cerca de um milhão de clientes sem eletricidade e partes da cintura industrial de Leiria às escuras durante semanas. Depois, o conflito no Golfo fez disparar os preços do gás na Europa, que chegam ao inverno ainda mais altos.
Muitos trataram estes episódios como acontecimentos isolados, atribuindo a culpa à rede elétrica, ao clima extremo ou à geopolítica. Mas, para as fábricas, o impacto é praticamente o mesmo: falhas de energia e picos de preços significam produção perdida e custos mais elevados. As fábricas precisam de se preparar para vários cenários: um apagão de horas, uma interrupção regional de vários dias e meses de preços de energia mais elevados. Um armazenamento de energia adequado e controlos inteligentes no local podem proteger as operações durante uma crise e reduzir os custos energéticos no resto do tempo.
Choque 1: o Apagão Ibérico de 28 de Abril de 2025
Às 11:33, hora de Lisboa, Portugal e Espanha continental ficaram sem eletricidade em poucos segundos. A ENTSO-E classificou o incidente no nível 3 da sua escala, o mais grave, e considerou-o o pior incidente na rede europeia em mais de duas décadas. O relatório final não identificou uma causa única: oscilações de tensão provocaram o disparo de geradores em Espanha, seguido de uma cascata de desligamentos por sobretensão, até a Península Ibérica perder o sincronismo com a Europa continental. Nesse momento, Portugal importava cerca de um terço da sua eletricidade de Espanha, e a procura nacional caiu 93% em poucos minutos. Com Espanha também às escuras, a REN – Redes Energéticas Nacionais teve de reconstruir o sistema a partir das duas centrais do país com capacidade de arranque autónomo (black start).

Nesse dia, o indicador diário de atividade económica do Banco de Portugal caiu 14,8%. Um inquérito da AIP a 1710 empresas revelou que 71% falharam compromissos com clientes e que 57% não tinham gerador nem bateria de reserva. As vulnerabilidades tornaram-se rapidamente evidentes no terreno. Na Primus Ceramics, perto de Aveiro, um gerador a gasóleo manteve em movimento os rolos dos fornos, mas a administração passou horas a decidir se parava a produção, se baixava a temperatura dos fornos ou se esperava pela rede. A refinaria da Galp em Sines precisou de vários dias para voltar a pôr as suas unidades em funcionamento. A ERSE classificou depois o apagão como um evento excecional. Essa decisão exclui a compensação automática por falhas na qualidade de serviço, pelo que as empresas só podem recorrer aos tribunais, em Portugal ou em Espanha, caso a caso. Entretanto, o grupo de trabalho parlamentar recomendou uma autonomia energética de pelo menos 72 horas para as infraestruturas mais críticas e de 24 horas para as restantes, com propostas centradas em hospitais, serviços de emergência, telecomunicações e, pela primeira vez, retalho alimentar e farmácias.
Choque 2: a Depressão Kristin, 28 de Janeiro de 2026
A Kristin chegou a terra perto de Leiria com rajadas de até 209 km/h. Às 06:00, cerca de um milhão de clientes da E-REDES estavam sem eletricidade, e mais de 6000 km de rede foram afetados. Se o apagão foi uma falha de estabilidade do sistema, a Kristin foi uma falha da infraestrutura física.

O impacto na indústria foi imediato. A região de Leiria concentra milhares de empresas e postos de trabalho nos setores dos moldes, do vidro, da cerâmica, dos plásticos e da metalurgia. As duas fábricas da Vidrala na Marinha Grande, que produzem milhões de garrafas por dia, pararam por completo durante quatro dias, e, dois meses depois, uma empresa local de plásticos ainda trabalhava em instalações provisórias, a apenas 70% da capacidade.

As fábricas não podem ficar à espera de que a distribuidora repare as linhas. Enterrar as linhas é a resposta óbvia à vulnerabilidade meteorológica, mas hoje apenas cerca de 20% da rede elétrica portuguesa é subterrânea. Como um enterramento generalizado leva anos a aprovar, a financiar através das tarifas e a construir, as melhorias da rede chegarão demasiado tarde para proteger as linhas de produção destas empresas.
Choque 3: a Subida do Preço do Gás a Partir de Março de 2026
O terceiro choque não provocou cortes de eletricidade. Um conflito geopolítico e graves perturbações nas rotas de abastecimento fizeram subir cerca de 70% o índice de referência TTF neerlandês, a maior subida mensal desde setembro de 2021. Embora o abastecimento físico de gás ao país se tenha mantido seguro, os preços de mercado não escaparam.

O choque financeiro atingiu diretamente a indústria transformadora. Só a cerâmica representa cerca de 18% de todo o gás consumido pela indústria transformadora portuguesa, e o gás representou historicamente entre 30% e 40% dos custos de produção do setor. Como o gás natural também define o preço marginal da eletricidade sempre que as centrais de ciclo combinado estão em funcionamento no mercado ibérico, até as fábricas totalmente elétricas sentiram a pressão.

Seis Lições que as Manchetes Ignoraram
1. O risco foi transferido para si
Planeie como se todas as perdas por falhas fossem suas. Depois de 28 de abril, nenhuma foi paga automaticamente.
2. O seguro tradicional não cobre a lacuna
Sem danos nas suas próprias instalações, a cobertura de perdas de exploração raramente é acionada. As seguradoras pedem agora planos de paragem e de rearranque.
3. A política pública pode não proteger a sua linha de produção
As 31 medidas do Governo financiam o controlo da rede, o armazenamento e o arranque autónomo. O financiamento de energia de reserva e os geradores móveis vão primeiro para hospitais e serviços essenciais.
4. Um processo a gás continua a ser um processo elétrico
Os fornos queimam gás, mas os ventiladores, os controlos dos queimadores e os acionamentos dos rolos funcionam a eletricidade. Mudar de combustível ajuda a gerir os custos, mas não impede que a fábrica pare quando a rede falha.
5. A descarbonização aumenta a exposição a interrupções
Cada bomba de calor ou forno elétrico torna a fábrica mais dependente da rede. Planeie a continuidade e a descarbonização em conjunto.
6. O ponto fraco é a decisão, não o equipamento
Com os telefones em baixo, as decisões da primeira hora têm de ser tomadas com antecedência e executadas por um controlo local que não depende da rede.
Base de Projeto e os Cinco Horizontes Temporais
Num apagão nacional de 12 a 24 horas, a rede falha de imediato e as telecomunicações caem em poucas horas. As instalações têm de parar em segurança e voltar a arrancar rapidamente. Numa perda regional de infraestruturas, que pode durar entre 3 dias e 3 semanas, as redes, as estradas e os edifícios ficam danificados. As fábricas têm de proteger os ativos e manter as cargas críticas em funcionamento. Tal como os engenheiros dimensionam as pontes para uma cheia de referência, o planeamento energético industrial exige a mesma lógica, e os últimos dezoito meses submeteram todas as fábricas portuguesas a três testes de stress distintos.
Há cinco horizontes temporais na pilha de continuidade, e os três primeiros são demasiado rápidos para a intervenção humana. Do primeiro segundo às primeiras horas, a automação faz o que as pessoas não conseguem fazer a tempo; o resto cabe ao planeamento da continuidade.

Construir o Plano, Fábrica a Fábrica
Nenhuma fábrica falha da mesma forma. Um forno de vidro, uma nave de moldação por injeção e um armazém frigorífico falham de formas diferentes. É por isso que o plano pertence a cada unidade, e não ao grupo.
- Mapeie as cargas pelo tempo até ao dano, não por kW: classifique-as em segurança das pessoas, proteção de ativos, produção crítica e cargas adiáveis.
- Atribua um custo à paragem de cada nível: inclua a margem perdida, o refugo, os custos de rearranque, as penalizações e os compromissos não cumpridos.
- Defina a autonomia de projeto por nível: o Parlamento propôs 72 e 24 horas de autonomia para infraestruturas públicas, uma referência útil.
- Projete uma verdadeira ilha: os inversores solares comuns desligam-se com a rede; o funcionamento em ilha exige armazenamento grid-forming e proteções coordenadas.
- Garanta combustível, acesso e segurança: tenha stock para o cenário regional e instale os geradores em segurança.
- Escreva o manual e depois automatize-o: transforme as decisões de critério em gatilhos, com deslastre de cargas e rearranque faseado.
- Mantenha o controlo na edge e guarde provas: funcione offline e registe todas as ações, porque qualquer pedido de indemnização exige agora prova da perda.
- Faça do preço uma variável de controlo: carregue o armazenamento nas horas de preço negativo e use equipamentos híbridos com a energia mais barata.
- Treine, meça, reveja: faça um teste real em modo ilha e um exercício de simulação pelo menos uma vez por ano.
Esta é exatamente a capacidade que um sistema de controlo na edge, apoiado em IA, tem de oferecer. Tem de tomar decisões de controlo no local, para que a fábrica continue a executar o seu plano de continuidade mesmo quando a rede está em baixo, e de registar cada ação, usando a cloud apenas para a coordenação mais alargada. Entre choques, deve otimizar os recursos; durante um choque, deve executar o plano de imediato, sem esperar por uma pessoa ou por uma ligação.

A Urgência de um Plano de Continuidade Energética
Inquéritos do setor estimam que as paragens não planeadas custam às 500 maiores empresas do mundo 11% das suas receitas. As empresas afetadas já estão a investir. A Fribin, empresa espanhola de transformação de carne, perdeu centenas de milhares de euros em produto a 28 de abril. Desde então, comprou dois sistemas de baterias de 5 MWh por cerca de 1,5 milhões de euros, com financiamento parcial do NextGenerationEU. A Vista Alegre tem agora cerca de 2 MWh de armazenamento em Ílhavo, e a Primus, que usa baterias desde 2022, vai mais do que duplicar a sua capacidade este ano. Ambas as empresas portuguesas usam as baterias para obter receitas da rede, além de as manterem como reserva.
Uma bateria comprada apenas como reserva fica parada 364 dias por ano. Um ativo de continuidade deve ser justificado por tudo o que faz: as perdas que evita, a compra de energia nas horas baratas do meio-dia para a usar ao fim do dia, quando é cara, o armazenamento da energia solar que, de outra forma, seria exportada a preços quase nulos, a redução dos picos que determinam os encargos de rede, a possibilidade de o equipamento híbrido funcionar com o combustível mais barato e os planos documentados de paragem e rearranque que as seguradoras pedem agora. Gerida por um controlador que também lê os preços, protege a fábrica no dia em que é preciso e paga-se em todos os outros.
A rede vai tornar-se mais robusta, mas ao longo de anos e segundo as suas próprias prioridades. Os parceiros certos analisam consigo, no local, as cargas críticas, calculam o custo das paragens e desenham para cada fábrica um plano de continuidade energética que também reduz os custos em operação normal.
A continuidade já não é uma preocupação secundária da indústria. É hoje uma disciplina operacional. A sua fábrica está preparada para o próximo choque?
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Fontes
Relatório final do Painel de Peritos ENTSO-E
ERSE: Investigação ao apagão ibérico de 28 de abril de 2025
DNoticias: ERSE classifica apagão como evento excecional
Jornal de Negócios: REN demorou dois minutos a pedir black start para Castelo de Bode
ECO: 7.600 clientes ainda sem eletricidade
ECO: Depressão Kristin e a economia da região
ECO: Indústria do vidro com milhões de prejuízo
RTP: Indústria de moldes alerta para situação difícil
Observador: Apagão em Leiria afeta água e telecomunicações
Observador: Comboio de tempestades custou 1.400 milhões às seguradoras
Renascença: Mais de 550 mil clientes sem eletricidade
Jornal Económico: E-Redes, 147 mil clientes sem energia
Euronews: A Europa está a caminhar para a sua pior crise de gás desde 2022?
GMK Center: Os preços do gás europeu ultrapassaram os €80/MWh em setembro
Shailendra Tomar, Diretor-Geral